O conflito que começou com ataques coordenados dos Estados Unidos e Israel contra o Irã não parou no primeiro dia. No segundo, Israel renovou os bombardeios sobre Teerã, mirando instalações de comando e controle no coração da capital, enquanto o Irã respondeu com barragens de mísseis contra alvos em Israel e em bases americanas no Golfo — Bahrain, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos. Relatos confirmados incluem a morte de três militares americanos em ação, os primeiros baixas dos EUA nessa escalada, além de civis mortos em ataques iranianos próximos a Jerusalém e em cidades do Golfo. No Irã, o luto oficial de 40 dias foi declarado após a confirmação da morte do aiatolá Ali Khamenei, e um conselho transitório — composto pelo presidente, chefe do Judiciário e um membro do Conselho dos Guardiães — assumiu as funções de liderança suprema. A sucessão, que já era delicada, agora se dá em meio ao fogo cruzado.

O Estreito de Ormuz, que carrega cerca de um quinto do petróleo mundial e volumes expressivos de gás natural liquefeito, está de fato paralisado. Não houve declaração formal de fechamento total pelo governo iraniano, mas a Guarda Revolucionária emitiu alertas via rádio VHF declarando a passagem “insegura” para qualquer navio, e companhias de navegação — incluindo petroleiros, cargueiros de contêineres e LNG — suspenderam trânsitos. Dados de rastreamento mostram centenas de navios ancorados no Golfo ou desviando rotas, com prêmios de seguro disparando e pelo menos um petroleiro atingido por míssil próximo ao estreito. O Brent saltou cerca de 10% em poucas horas, aproximando-se dos US$ 80, com analistas projetando patamares acima de US$ 100 se a interrupção se estender por semanas.
Para o Brasil, isso não é notícia distante. Somos importadores líquidos de derivados de petróleo — gasolina, diesel, querosene de aviação —, mesmo sendo exportadores de cru. Qualquer choque no preço global ou no frete de importação se traduz em alta imediata nos postos, no transporte de cargas (que ainda é majoritariamente rodoviário) e na cadeia alimentar. O real, já pressionado por fluxos de capital fugindo de emergentes em risco, sente o dólar mais forte; a inflação, que mal se acalmava, ganha novo fôlego via repasse de custos energéticos e logísticos. Famílias que vivem com orçamentos apertados — a maioria da população — veem o poder de compra encolher novamente: mais caro encher o tanque para ir trabalhar, mais caro transportar mercadorias que chegam ao supermercado, mais caro manter a casa iluminada e refrigerada. A desigualdade, que nunca desapareceu de verdade, se agrava porque quem tem menos margem de manobra paga proporcionalmente mais caro por esses itens essenciais.
Economicamente, o dilema é cruel. Com a Selic ainda em patamares restritivos (e cortes adiados ou questionados pelo risco inflacionário externo), o Banco Central tem pouco espaço para aliviar a pressão sobre o crédito e o consumo interno. O Ibovespa, que vinha de um rali forte no início do ano (acima de 192 mil pontos em fevereiro), recuou para a faixa dos 188–189 mil, refletindo não só o medo global, mas a percepção de que choques energéticos externos corroem o otimismo doméstico. Exportadores de commodities podem até ganhar com real mais fraco, mas a economia como um todo — dependente de estabilidade para investimento e emprego — sente o freio.
Geopoliticamente, o episódio desnuda a fragilidade de um mundo que finge ter superado dependências físicas. O Ocidente projeta poder militar para neutralizar ameaças percebidas como existenciais; o Irã, mesmo enfraquecido pela perda do líder máximo e pela sucessão caótica, responde com assimetria que atinge rotas comerciais vitais. O Brasil, integrado ao sistema global mas sem alavancagem militar ou energética para ditar termos, fica exposto: pagamos a conta da instabilidade sem participar da decisão. A sensação coletiva é de vulnerabilidade — o mundo decide, e nós ajustamos o orçamento familiar em consequência.
O conflito pode desescalar com negociações forçadas pela sucessão iraniana ou escalar para algo mais prolongado. Em qualquer cenário, o preço da ilusão de estabilidade energética global continua sendo cobrado aqui: no bolso, na inflação que não perdoa, e na percepção de que soberania plena é luxo que poucos países têm de fato. A realidade, mais uma vez, se impõe composta e implacável.